Olhos azuis: um filme para duelar contra a intolerância


 por álvaro marins





O tema do mais novo filme de José Joffily é a intolerância. Uma patologia psico-social que só provoca sofrimento e dor — para aqueles que são alvo da intolerância e para os intolerantes em si. O filme de Joffily trata disso; pertencente à mesma linhagem de filmes como Tempo de matar (1996), de Joel Schumacher, O segredo (1996), de James Foley, e A outra História Americana (1998), de Tony Kaye. Todos eles, incluindo Olhos azuis, ajudam a compreender e a lutar com todas as nossas forças contra esse mal.

Antes, é preciso dizer que Olhos azuis é um dos filmes mais bem feitos do cinema nacional recente, desde o argumento até a sua edição final, passando por um roteiro impecável. O filme é um dos melhores exemplos de que o cinema brasileiro, hoje, não fica a dever a nenhuma produção estrangeira — sob nenhum aspecto. Que José Joffily é um dos grandes roteiristas de nosso cinema ninguém discute. Neste ofício destacou-se com Parahyba mulher macho (1983), A cor do seu destino (1986, Troféu Candango de melhor roteiro) e Vai trabalhar, vagabundo II, entre outros. Após uma experiência na direção em 1984, com Urubus e papagaios; na década seguinte, Joffily engrena uma produtiva carreira de diretor que inclui filmes importantes como A maldição do Sanpaku (1992) — vencedor de vários prêmios conferidos pela Associação Paulista de Críticos de Arte e pelos festivais de Gramado e de Brasília —, Dois perdidos numa noite suja (2002), onde mais uma vez enfrenta o tema da imigração (já tinha abordado essa temática antes, em A cor do seu destino), e o premiadíssimo Quem matou Pixote?, ganhador de sete Quiquitos de ouro em Gramado, incluindo o de melhor filme.

Em Olhos Azuis, surpreende o cuidadoso trabalho com os atores (será que é devido ao fato de o próprio Joffily ser também um ator de cinema?). Muito bem escolhidos, a atuação de cada um deles é um capítulo a parte. Todos interpretam seus papéis no tom certo, sem um mínimo de afetação, o que muito contribui para a atmosfera realista do filme. Esse aspecto confere um grau de verossimilhança adequado ao andamento do enredo, que cresce em dramaticidade na medida em que se desenvolve.

Com um roteiro bem construído, onde o tema da imigração aparece mais uma vez, Olhos Azuis consegue prender a atenção até o final, quando finalmente o espectador compreende tudo que ocorreu na sala da alfândega de um aeroporto estadunidense. Usando com habilidade o recurso do flashback, o filme vai e volta entre duas narrativas temporais: a que transcorre dentro da referida sala e a viagem do chefe policial Marshall (David Rashe) ao Brasil, mais especificamente, a Pernambuco. Aos poucos, percebe-se que algo de muito grave ocorreu no aeroporto, motivo que trouxe Marshall ao Brasil, personagem-elo entre as duas narrativas. A narrativa que transcorre no aeroporto tem como cenário um único ambiente e com uma duração estimada em aproximadamente uma hora; a outra acompanha a viagem de Marshall, dura alguns dias e se passa entre o Recife e Petrolina. O drama se desenvolve também em dois ritmos distintos: um mais acelerado, nos Estados Unidos, que se intensifica progressivamente até atingir o grau máximo de tensão, mantendo o espectador atento desde o primeiro minuto; e outro que se desenvolve numa cadencia mais lenta, acompanhando os passos angustiados do policial no Brasil.

O equilíbrio adequado entre estes dois ritmos e espaços diferenciados captura de forma inapelável o espectador, que morre de curiosidade para saber o que ocorreu na EUA e qual o objetivo de Marshall no Brasil. Percebe-se apenas que foi algo muito grave e que mudou de forma definitiva a vida e a maneira de pensar do policial. Depois de um “prólogo” de Marshall na prisão, o filme inicia com o policial em seu ambiente de trabalho, chefiando o setor, muito seguro de si e de suas posições. Ao contrário de seus subordinados — um policial hispano-americano, Bob (Frank Grillo), e uma policial afro-americana, Sandra (Erica Gimpel) —, suas posições ideológicas conservadoras são muito firmes a respeito de indivíduos oriundos de países hispano-americanos e resume um sentimento muito difundido entre os setores mais radicais da população estadunidense de pele branca. Para esses indivíduos, os south-americans não passam de uma raça inferior, que deseja se aproveitar do progresso e da riqueza dos EUA, disputando postos de trabalho com os “verdadeiros americanos”. Em suma, o chefe Marshall representa o típico estadunidense branco, conservador, e que constitui o núcleo duro da base eleitoral do Partido Republicano nos Estados Unidos.




Habilidosamente, os realizadores (diretor e roteirista) da película acrescentam um ingrediente importante para o desenrolar do enredo: é o último dia de trabalho de Marshall e por isso ele resolve beber durante este derradeiro dia de serviço. À medida que o tempo vai passando, o estado de embriaguês do futuro aposentado se acentua, o que faz com que aja de acordo com os seus sentimentos e visões de mundo mais arraigados. São esses sentimentos mais interiores, potencializados pelo efeito progressivo da bebida, que conduzem o enredo para um desfecho duplamente trágico. A vinda ao Brasil de Marshall deriva de uma tragédia ocorrida nos EUA. Uma tragédia que envolverá a personagem de Nonato (Irandhir Santos), com quem Marshall travará um eletrizante duelo. Porém, por conta dos recursos do thriller, manejados com perícia por Joffily, nada mais podemos acrescentar acerca do enredo de Olhos azuis sem que prejudiquemos a aura de suspense presente no filme.

Como disse anteriormente, o filme sustenta-se fortemente no trabalho dos atores e nesse sentido não pode ser esquecido o papel de Bia, cuja interpretação sensível e delicada de Cristina Lago possibilitou um dos momentos de maior humanidade do cinema brasileiro. Ele ocorre ao final do filme, quando Bia intermedeia uma conversa entre Marshall e a mãe de Nonato. É possível que muito da visão de mundo do cineasta José
Joffily possa estar contida nesta cena.

E nada mais deve ser dito por ora. É correr para assistir Olhos azuis.



Álvaro Marins, é coordenador de pesquisa e inovação museal do Ibram, e autor de Machado de Assis e Lima Barreto: da ironia à sátira (Rio de Janeiro, Utópus, 2004).

0 comentários :

Postar um comentário

 

.newsletter

Cadastre-se e receba nossas atualizações diretamente em seu e-mail:

.arquivos

.facebook

.sobre

Criada com o desejo de debater temas únicos com olhares de várias perspectivas, artísticas – ou não (como diria Caê); a Revista Rapadura nasce para fomentar, no espaço livre e caótico da internet, o diálogo, a reflexão e o prazer através de matérias aglutinadas por sua natureza colaborativa.

Uma revista feita por pessoas de diferentes ideias, idades, idiossincrasias, lugares, opiniões, paladares.
Lembre-se: é doce, mas não é mole não.

.
.